Resenha do livro: 1984 – George Orwell

Resenha do Livro 1984 de George Orwell
Essa resenha de 1984 foi publicada originalmente em 2013 em meu antigo blog. Incrível como um livro é atemporal, continua extremamente relevante, pois reflete o estado de espírito humano em todas as épocas. Esse livro deveria servir de alerta, mas as pessoas atentas podem notar com clareza as tentativas constantes do governo e de empresas de usar algumas das ideias do livro na prática. É fácil de perceber porque milhares de pessoas veneravam Orwell e o chamavam de profeta. Ele escreveu o livro em 1948, prevendo algumas coisas bem semelhantes que aconteceriam no mundo. Muito mais do que uma simples história, é um tapa na cara da sociedade e de como o ser humano é frágil e dependente de um sistema que diga a ele o que deve ser feito. Poder em 1984 o grande irmão Antes de tudo, temos de lembrar que 1984 é um romance distópico. Tal como alguns filmes recentemente tentaram adaptar a estética para as telonas, como Equilibrium, entre outros. Não foi o primeiro livro do tema, mas foi um dos que mais se destacaram. Tem seu lugar na estante ao lado de Admirável Mundo Novo e também Fahrenheit 451. É leitura obrigatória para amantes de ficção científica e estudantes do ensino médio. Há um posfácio no livro (edição da Companhia das Letras) que exemplifica os tipos de distopia, um pouco da linha do tempo e surgimento das utopias, para os leitores se informarem do assunto, logo, basta um conhecimento bem básico de história mundial para entender os conceitos cruciais do livro. A situação global retratada no livro, inclusive o clima de guerra contínuo, foi resultado de uma constante pressão política de tentativa de dominação da população e, embora várias coisas venham à tona quando o lemos, uma se destaca bastante: Pode o ser humano ser um escravo e manter sua fidelidade e desejar proteger quem o escraviza? Escravização humana em 1984Tentem voltar para a história e vejam elementos sucessivos que podem vir a desencadear uma situação semelhante em nosso tempo: aumento de impostos sucessivos sem motivos para criar barreiras insuperáveis entre classes sociais; sistema de saúde precário que mata milhares de pessoas; déficit de ensino de qualidade aumentando continuamente a massa de trabalho não qualificada (e/ou de trabalhos não predominantemente intelectuais), entre outros fatores, são exemplos de tentativas de se aplicar as regras de dominação exemplificadas no livro. 1984 é emocionante. É praticamente uma história de terror visceral com trechos de aventura, felicidade e também suspense e drama. Você vai se apaixonar pelos personagens, embora eles não sejam exatamente modelos a serem seguidos, nem heróis, por assim dizer, há dezenas de momentos em que você literalmente sente na pele o que o personagem está passando. Senti pena, dor… torci pelo Winston (personagem principal). Criei ódio por outros personagens específicos. Chorei… o livro é profundo e é extremamente indicado que voltemos a lê-lo de tempos em tempos, para lembrarmos um pouco do que é e de como acender a chama humana. Vivemos nosso dia-a-dia tranquilamente, nesse período entre guerras, mas já pararam para refletir como era viver na época da guerra, em um clima de conflito e desespero, miséria e falta de esperança, ou melhor e mais atual para os brasileiros: como era viver no regime militar sem ser um escravo do governo? Como será que um Partido e um empenho em uma tomada de poder pode dominar um povo e transformá-los em marionetes? Como pode um grupo alterar a maneira como a população vive, até que não sobre mais nada do que havia antes? Até que haja uma perda da identidade das pessoas (da maneira que conhecemos), transformando-se em metafóricas células em um corpo, uníssonas, sincronizadas e que batalhem para defender “o todo”. Como um grupo pode dominar um povo por décadas? Ou séculos? Ou eternamente? Humanos transformados em Bateria Qual é o verdadeiro significado de “poder”? E o mais importante e subliminar no livro: Isso tudo vale a pena? Para quem? Orwell consegue provar que o ser humano pode perder a sua alma. Que pode ser reduzido a um conjunto de informações que se repetem e que servem a humanos que também já não são mais humanos. Esse tipo de pensamento pode ser visto em outras obras escritas no pós-guerra, mas creio que 1984 é especial de mais maneiras, mostrando questionamentos como “o que é ser humano?”, “o que é verdade e mentira?”, “verdadeiro é tudo aquilo que a maioria acredita ou aquilo em que você acredita?” Alguma vez já tentou discordar de um grupo de pessoas que pensam diferente de você? Um trecho do posfácio se destaca quando podemos fazer um paralelo às marcas e até as guerras, de quem está do lado de quem, o interesse da maioria ou a ideia vigente do grupo. E é interessante como o livro do Orwell ainda é bem atual e pode ser usado para designar alianças políticas, uso de marca favorita ou até de empregos mesmo. Lembrei-me de quando a Ana me contou que a IBM tem até hino da empresa e que os funcionários eram ensinados a amar e respeitar a marca de um jeito muito intimista e apavorante (se formos observar o resultado final) de transmitir a ideia de que você acredita 100% naquela marca. Eles faziam o funcionário literalmente “vestir a camisa” da empresa, o que chega a beirar o medonho de como as pessoas podem ser transformadas. Essas coisas só se tornam perceptíveis quando você sai da empresa e tem uma perspectiva crítica do assunto, nunca quando está seguindo o grupo/ou ainda é um empregado, por exemplo.
“Se trabalho para uma grande corporação que afirma que seu produto é melhor que o dos concorrentes, questionar se essa afirmação é justificada ou não no âmbito da realidade discernível torna-se irrelevante. O que importa é que, enquanto sirvo a essa corporação em particular, tal afirmação passa a ser a ‘minha’ verdade e abro mão de questionar se ela é uma verdade objetivamente válida. De fato, se mudo de emprego e me transfiro para a corporação que era até agora ‘minha’ concorrente, devo aceitar a nova verdade – de que seu produto é melhor e, subjetivamente falando, essa verdade será tão verdadeira quanto a anterior. Um dos desenvolvimentos mais característicos e destrutivos de nossa sociedade é o fato de que o homem, ao se tornar cada vez mais um instrumento, transforma a realidade, progressivamente, em algo relacionado a seus próprios interesses e funções.
1984 é intenso e cruel. Há torturas angustiantes. Senti calafrios por toda a leitura. Devemos avisar que os leitores precisam preparar seus corações e seus estômagos, claro, pois as cenas são fortes. Há quem não conseguirá se identificar com o personagem principal, mas para entender o livro, devemos tentar pensar como um trabalhador, cujo comportamento foi, infelizmente, modulado para que trabalhasse sem questionar em meio a uma situação difícil e cotidiana como é exemplificada no livro. Claro que temos também trechos de críticas leves e engraçadas (como o da loteria abaixo), ou belíssimos (como o abaixo dele) com o decorrer da leitura, aliviando os momentos angustiantes e tornando o livro bem único:
“Continuavam discutindo, semblantes febris, fanatizados. A Loteria, com seus prêmios semanais milionários, era o único acontecimento público que efetivamente despertava o interesse dos proletas. Era muito provável que para milhões deles a Loteria fosse o principal, senão o único, motivo para continuar vivos… …quando o assunto era Loteria, até gente que mal sabia ler e escrever parecia capaz de cálculos complexos e de impressionantes façanhas mnemônicas.” “A doçura que pairava no ar e o verdor das folhas o intimidavam… os raios do sol de maio o haviam feito sentir-se sujo e anêmico, um ser que levava a vida entre quatro paredes, com a poeira fuliginosa de Londres impregnada nos poros.”
É uma pena não poder colocar dezenas de citações aqui para não revelar mais detalhes da “jornada” de Winston, mas em diversos momentos há partes bem poéticas como essa acima. O livro tem um tom bem introspectivo, mesmo sendo em terceira pessoa, o narrador não é onisciente. Vamos descobrindo passo a passo mais detalhes do mundo de Winston e de seu dia-a-dia. As pessoas podem achar que como é um clássico, ele pode ser maçante, mas não achei, é bem emocionante e dramática a história. Força do Partido em 1984Em todas as residências e lugares públicos havia uma “teletela”. É claro que a teletela é uma coisa bem atual ainda. Isso é bem assustador. Vocês sabiam que já há patente de uma tela com a capacidade de filmar o usuário através da tela (onde a tela inteira seria a câmera)? Bom… o Partido proclamava suas vitórias, passava notícias e o mais importante: espionava e vigiava a população. Todas as teletelas eram conectadas em um local central e eram observadas aleatoriamente. As pessoas não tinham liberdade até que começavam ignorar isso. Ou você repara mesmo nas câmeras de segurança em estabelecimentos e em ruas movimentadas? Londres é lotada dessas câmeras. As pessoas vivem em profunda agonia lá. Há até os mais conspiracionistas (e que dá até pra entender, pois faz sentido) que dizem que aqueles atentados foram cometidos pelo próprio governo para deixar a população em estado de pânico. Além disso havia uma divisão da polícia, responsável por capturar pessoas contrárias ao sistema. Essa divisão era a “polícia das ideias”, como Scott Westerfeld homenageou na sua série Feios, com o pessoal das “Circunstâncias Especiais”. Só não posso falar mais do que isso, para não invadir o território do spoiler.
“A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais… enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal, além de ser ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação…”
Regime Militar Vocês já conversaram com uma pessoa que passou pela época do regime militar? Já trocaram palavras com alguém que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial para contar sua história? Uma pergunta resume bem o princípio da dúvida, a centelha da curiosidade que se revolta no âmago de Winston:
“Antes da revolução a vida era melhor que agora?”
O Partido, que domina a população, no livro tem “Ministérios”, cujas funções são de assegurar seus domínios. O curioso é que cada Ministério tem o nome oposto ao que ele realmente significa, como por exemplo, o Ministério da Verdade, responsável por alterar o registro histórico, afirmando mentiras. Falando do Ministério da Verdade, logo na entrada do prédio, há uma fachada branca com três slogans que por acaso estão também em todas as faces das moedas:

GUERRA É PAZ LIBERDADE É ESCRAVIDÃO IGNORÂNCIA É FORÇA

O rosto do Grande Irmão estava estampado em todos os lugares da cidade. Era uma lembrança constante de autoridade indiscutível. Em qualquer lugar para qual as pessoas olhassem com certeza haveria a poucos metros um painel enorme com a face do Grande Irmão que como diz o personagem principal: “parecia perseguir a pessoa”.
“Quando você faz amor, está consumindo energia; depois se sente feliz e não dá a mínima pra coisa nenhuma. E eles não toleram que você se sinta assim. Querem que você esteja estourando de energia o tempo todo. Toda essa história de marchar para cima e para baixo e ficar aclamando e agitando bandeiras não passa de sexo que azedou…”
Há diversas coisas que o Partido usa em 1984 para controle social e que nos remetem a controles ainda usados hoje em dia, tornando a obra bem atual, infelizmente. Alteração de documentos históricos e distorção de fatos e reportagens tendenciosas podem alterar a percepção das pessoas sobre determinados assuntos e, mais cedo ou mais tarde, sobre tudo. Doutrinar as crianças nas escolas com os dogmas (religiosos ou não), ensinar as pessoas que tudo que veem é melhor hoje do que era antigamente (mesmo sendo mentira, claro), ensinar que elas não precisam de nada, para que o todo possa ter sucesso (vulgo, estímulo da penitência x recompensa na próxima vida) e até mesmo a noção de que, se não está em sua frente, o problema não é seu (remoção da responsabilidade do indivíduo para responsabilidade do governo cuidar das pessoas, como carneiros). Há teorias bem interessantes neste quesito, do real significado de democracia, governo, liderança e até dos sistemas sociais mais básicos e que dão ótimas análises. O ciclo uniforme e constante de guerras ilógicas, sem contar a falta de variedade (e classificação de bem pessoais como desnecessários), pois se não há individualismo, para que dez marcas de bebida, de cigarro ou de café, se há apenas uma marca de tudo? Cigarros Victory, Gim Victory… pessoalmente, acho até isso um terror. Resenha do Livro 1984 - Praça queima livros E se pudéssemos alterar o passado? Não como nas fotos em De Volta pro Futuro, claro, mas… quão importante é o passado? E como ele nos define? Alterar todos os registros históricos para colocar a verdade como nós queremos que ela seja? Referências na nossa história não faltam… (veja esse artigo sobre a queima de livros da época da guerra) No livro, o Partido faz isso todos os dias. As pessoas não sabem o que aconteceu de fato no passado, pois tudo é reescrito. Com o tempo, todos esquecem, pessoas morem e a história é reescrita. Isso também é um pesadelo para a nossa realidade.
“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado”.
A importância da pluralidade dos pontos de vista, de opiniões, de registros históricos, é essencial para que mantenhamos o mundo que conhecemos e a marca humana, seja ela boa ou ruim, para que possamos sobreviver pelos tempos. É de igual importância a exatidão e o primor em traduções de documentos. Manter o nosso passado aquecido e protegido é dever de todos. O que podemos aprender com esse grande “e se…?”. Uma coisa simples que podemos fazer hoje, por exemplo, é registrar. Registrar tudo o que sentimos, todos os nossos anseios. Reclamar de política, claro e exigir direitos. Lutar pelo que acreditamos e em conjunto, não apenas sozinhos e não deixar nunca que as pequenas coisas sejam substituídas e removidas de nossa vida, pouco a pouco, até que não tenhamos mais alma nenhuma.
“Os melhores livros, compreendeu [Winston], são aqueles que lhe dizem o que você já sabe.”
Protesto de Diretas Já na Praça da SéDeixo também uma imagem pra refletir também… de quão lindo e potente foi o protesto do Diretas Já (em frente à praça da Sé). Imagem que escolhi antes do protesto de Junho e os seguintes, que acabaram por superar em número. Precisamos sempre nos lembrar de quão importante é cultivar a nossa história e fazer de tudo para que ela não seja reescrita em livros escolares ou esquecida, mantendo viva a essência para novos tempos. Nota do livro? 10 é claro! Saiba mais sobre a experiência de Milgram aqui Pessoas comuns podem ir contra seus códigos morais? O que é preciso para corromper um ser humano?

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